Abraçando um desconhecido.

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Talvez os torcedores do século XXI não saibam, mas o Internacional teve um final de século XX digno dessa segundona que estamos amargando esse ano. Quem está acostumado a títulos internacionais, campeonatos gaúchos aos borbotões e goleadas históricas nos adversários, não deve mais lembrar que lá nos anos 1990 vibrávamos por coisas bem menores, tipo um carrinho ou gauchão ganho num 0X0 em noite de chuva. 

Era uma época de se ir ao Beira-Rio, sem cobertura nem cadeiras, e pular da coréia para a inferior, passando por cercas de arame farpado, deixando nos espinhos enferrujados um pedaço da calça, da camisa ou até mesmo do próprio couro.

Nessa época, comemorei um título de gauchão sobre o Grêmio, em uma noite de chuva torrencial, com pouco mais de 5 mil pagantes no estádio. Teve direito a treinador escondendo bolas, direção apagando as luzes do estádio e abraçar um desconhecido. Sim, esse é o espírito. Ao silvo final do apito, eu, meu irmão e meu sobrinho fomos abraçar aquele senhor gordo, sem camisa e sem banho, que cheirava a tabaco, álcool e carniça. Ele, uma montanha em forma de gente, abraçou a nós três ao mesmo tempo, nos levantando do chão e chorando conosco por mais um título conquistado. 

Isso era necessário naquela época. Abraçar esse desconhecido. Esse cara do qual teríamos nojo se encontrássemos na rua ou ou qualquer outro lugar que não fosse um estádio de futebol. 

Isso era necessário ao Inter agora. Precisávamos abraçar, como se fosse nosso melhor amigo, esse senhor gordo e mal cheiroso que é a segundona. Até agora o nosso time, a comissão técnica, a direção e até a torcida, não havia abraçado a segundona. Tínhamos nojinho. Mas não no jogo de ontem. Pela primeira vez senti o Inter abraçar o fedorento.

Faço um relato sobre Inter X Oeste, na última terça-feira.

Saí de casa disposto a ir ao estádio e pelo caminho fui ligando para os amigos de sempre para ver quem iria e as negativas se amontoavam. Ninguém estava a fim de investir uma noite de terça-feira para ver o time jogar contra o Oeste (nojinho século XXI). Fui assim mesmo, solito no más. No trajeto, que fiz a pé, como manda o manual da segundona, fui encontrando outras muitas pessoas indo para o Beira-Rio. O clima era tenso. Dava para ver no semblante de cada um que estávamos nos encaminhando para um lugar onde não queríamos mais estar, mas que precisava de nós. Maldita segundona!

Já no estádio, a energia era forte no ar. Pelos eriçados como se todos estivéssemos colocando a mão em um enorme gerador de Van de Graaff. Ali tomei a decisão de abraçar de vez a série B. Cancelei meu check in da superior e refiz na hora para a inferior. Era ali que eu queria estar, perto do suor e do cuspe. Não queria ver o time lá de cima e analisar taticamente nossas jogadas. Queria poder carregar nossos jogadores no colo se fosse preciso.

Bola ao centro, começa o jogo.

Rodeado de ilustres desconhecidos, próximo à bandeirnha de escanteio do portão 4, estava eu, agarrado a todas as minhas mandingas e com pensamento único de que precisávamos da vitória.

Logo no início descobri que o time do Inter tinha decidido também se abraçar à segundona. Nico Lopez disputava a bola com socos no adversário. Em seguida, D’Alessandro dá um carrinho (acho que foi o primeiro carrinho que o time deu em toda a série B e já estamos na 17º rodada!!!) digno de cartão amarelo e, se pega um juiz mais sério, até expulsão. O árbitro não marca NADA. Segue o jogo. Liderados pelo grilo e pelo gafanhoto, os outros jogadores se imbuem desse espírito e cada bola é disputada como se a vida dependesse daquilo. E ela depende.

Mas o gol não vinha.

Foi só aos 44 minutos que a bola estufou os cordéis da cidadela (90’s alert!) do goleiro do Oeste. Embora a jogada tenha sido boa, o gol foi marcado pelo jogador que é o maior criticado pela torcida. Eduardo Sasha é aquele cara que tem muito mais vontade do que talento, que se entrega de corpo e alma em todos os jogos, mas que não convence, não dá certo. Ele havia sido o único jogador fortemente vaiado durante a apresentação do time no telão. Agora estava ali, sendo aplaudido. Sem valsinha com a bandeira, punhos cerrados e gritos de CARALHO. Ali eu abracei o estranho ao meu lado. Uma mistura de Luiz Caldas com Steven Segall (90’s alert!!) que quase aos prantos gritava: Nós vamos voltar! Nós vamos voltar!

Segundo tempo. 

Saio do meu lugar e dou a volta no estádio, indo até a bandeirinha de escanteio do lado oposto ao que eu estava, lá no portão 8. Agora mais segundona do que nunca, estava eu ali, espremido entre vários outros que eu não conhecia, meio de pé, meio de cócoras, escutando gritos de “Olha o mijo” e “Senta Filho da Puta”, que prontamente eram respondidos com “Quer assistir sentado, vai pra casa ver pay per view”. 

Foi ali que vi sair o segundo gol colorado. Esse sim, um legítimo gol de segundona. Salseiro sem tamanho na área, uns 126 chutes em direção ao gol, umas 14 faltas diferentes para ambos os lados, até que a bola sobra pela segunda vez nos pés de Uendel, que dá uma baga para dentro do gol. Abraço o desconhecido maconheiro ao meu lado. Pulamos e gritamos. Xingamos o goleiro adversário, o bandeirinha e até o Uendel. Estávamos em êxtase. Agora a segundona fazia parte de nós.

Fim de jogo.

A torcida sai do estádio cantando Nada Vai Nos Separar. Sorrisos e abraços com aqueles que muito provavelmente não vou mais encontrar.

Que a segundona continue sendo esse desconhecido para nós. Fedorento, feio, do tipo que nos dá vergonha. Não quero ser amigo dela. Mas que a cada novo encontro nos abracemos nele como se fosse nosso irmão e saibamos que esse é o único jeito de um dia sairmos desse buraco.

 

Texto do Colorado Gus Bozzetti.

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Bonetti

Publicitário, estava no Beira Rio no gol iluminado em 75, contra o Vasco no Invicto de 79, no pênalti do Célio Silva em 92, na final contra o São Paulo em 2006 e contra o Chivas em 2010. Tinha que estar aqui também.

3 comments

  1. marcelo corsetti 28 julho, 2017 at 10:48 Responder

    Texto perfeito. Há poucos dias falava com amigos que parecia que o inter estava tratando a segundona ( série B é um eufemismo que inventaram quando o outro time da cidade foi passear por lá) como um rito de passagem. Parecia que já estava tudo certo, que ano que vem os adversários seriam flamengo, palmeiras etc….. Só que não , tem que jogar,, e jogar tipo terça feira,,,,

  2. Dorian R. Bueno 28 julho, 2017 at 11:47 Responder

    SE EU FOSSE PRESIDENTE DO COLORADO, DARIA TÍTULOS E LUCROS AO CLUBE !!!

    A pior coisa que aconteceu no mercado do futebol foram os dirigentes de clubes não terem talento para conseguirem ser independentes, não precisar sofrer a influência de ex-dirigentes e ficarem dependentes deles e de empresários.
    Não sei se é verdade que isso possa estar acontecendo dentro do INTERNACIONAL, até mesmo quando as coisas não funcionam corretamente de forma clara dentro do campo, logo condenamos apenas o treinador e os jogadores.
    Se eu fosse Presidente tentaria montar primeiro um GRUPO de TRABALHO com TALENTOSO$ COLORADO$, contrataria os melhores jogadores do mundo do goleiro até o meio do campo, e na frente algo tipo o Cristiano Ronaldo, Messi e Neymar para ser o TRIO para fazer os GOLS de CAPTAÇÃO de RECUR$OS.
    Como falava um Amigo meu e de muitos por aí, estou convencido e tenho a certeza que junto aos PATROCINADORE$ de PORTES VIRTUAI$, seria muito fácil angariar FUNDO$, por que estes GRANDES jogadores dariam muito LUCRO dentro e fora das quatro linhas, e TODO O TIME poderia $ER CAMPEÃO.
    Pensando grande assim, é bem melhor do que ter que ouvir corneta da torcida e da imprensa por ter contratado jogadores do perfil do Carlinhos, Alemão, Uendel, Gutiérrez, Roberson, Alemão, Carlos, Cirino, Diego, etc.
    COLORADOS, TEM QUE PENSAR E JOGAR FUTEBOL COMO GENTE GRANDE !!!

    Abs. Dorian Bueno, Google+Plus, POA, 28.07.2017

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