Nós também amamos futebol.

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Quando comecei a frequentar estádios era muito pequena para entender o que acontecia quando uma mulher aparecia. Eram cantos e gritos, tão grotescos quanto o famoso saco de mijo. Minha consciência infantil e protegida pelos homens da família, não alcançava a violência presente ali. Com o tempo, me dei conta que pertencia a um grupo que enfrentava e enfrentaria preconceitos: as mulheres que amam futebol.

Vamos combinar que a maioria de nós não foi criada com uma bola no pé, perdendo o toco do dedão em algum paralelepípedo. Fomos preparadas para sermos bonitas e comportadas e a aproximação, por vezes recorrente, entre o futebol e a masculinização da mulher nos retira desse plano de beleza e feminilidade. Que bom que algumas transgressoras perfuraram essa maldita bolha e hoje, vão ao estádio, comentam os jogos e vivem o universo do futebol, ainda muito masculino. Seguimos em constante avanço. Porém, alguns pontos isolados merecem atenção. Desde investimento na modalidade, espaço que a mídia dedica ao futebol feminino e como esse espaço é utilizado. Normalmente, os talentos ou conhecimentos esportivos são acompanhados de observações sobre a imagem e comportamento das profissionais da área.

Segundo dados fornecidos, ano passado, pelo Movimento por um Futebol Melhor, o Inter tem o maior número de integrantes femininas em seu quadro social (23% aproximadamente) entre os clubes brasileiros. Que esse número siga aumentando. Que tenhamos espaços para as opiniões femininas, como aqui no Alambrado. Que esses espaços sejam para valorizar nossa competência e o que temos a agregar.

Tratando-se de discurso, em um país como o Brasil, o futebol é incorporado à identidade nacional. Discutir (e resignificar) sobre o papel da mulher nesse “lugar” é de extrema importância. Afinal, ele também é nosso. E cá entre nós, estou adorando dar uma de Carrie Bradshaw que não escreve sobre o sexo e a cidade, mas sim, sobre futebol.

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2 comments

  1. Edson Chaves Filho 24 Janeiro, 2018 at 18:59 Responder

    Ótima análise, Michele. O espírito desbravador surgido na infância, felizmente, não te abandonou e, por isso, é bom tê-la entre nossos analistas colorados. Fiquei surpreso com a tua informação de que o quadro social do meu clube do coração tem o maior percentual de mulheres entre os clubes brasileiros. Orgulho desse dado. Dentro do mesmo espírito, acho que caberia uma checagem sobre o número de negros associados. Será que faremos jus mesmo à gênese da nossa história?

    Abraço e desejo de boa sorte

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